Desenhada em 1927 por Paul Renner, a fonte Futura é um dos símbolos do modernismo no design gráfico. Thibault de Fournas fez-lhe um tributo através da seguinte animação…
História Universal da Infâmia
Literatura, história, filosofia
The Joy of Books
Natália de Andrade, a diva portuguêsa que não o era…
Natália de Andrade viveu entre 1910 e 1987, e pelo meio, cantou e editou discos, pensando que cantava bem. É uma primeira frase algo cruel, mas é o que se depreende pelo seu diário, aliado às suas gravações, na qual teve o seu momento apoteotico foi uma ida ao Passeio dos Alegres do Júlio Isidro (que o que consta, foi acima de tudo uma acto de caridade). Alias, esse video esclarecerá o que me refiro em relação à sua, digamos, maneira peculiar de cantar – quem sabe não simplesmente não nasceu fora do tempo. Também pode ser indirectamente reconhecida do grande público através das intepretações das suas canções por parte de Herman José. E mais recentemente parece representada num CD ititulado “The Muse Surmounted”. que se trata de uma compilação de várias gravações de “cantoras” iludídas – sendo fascinante procurar na internet as suas historias e gravações, pois há casos de terem cantado no Carnaggie Hall (por, essencialmente, fascinio voyeurista) e casos de terem espaço televisivo porque tinham (muito) dinheiro para pagar esse slot de TV (porque seria obviamente impossível de outra maneira. Voltando à Natália, fica aqui também um link de uma excelente bio-reportagem dela no Público ( http://www.publico.pt/Sociedade/natalia-de-andrade-a-cantora-iludida-que-pensava-ser-diva_1444383?all=1 ) e o video da sua actuação no Passeio dos Alegres para formular a sua própria interpretação.
Alma Mahler ou a vingança de pandora.

Bela, criativa e apaixonada, Alma Schindler (1879-1964) seria a mulher perfeita não fora a tendência suicida para se perder de amores por homens do seu nível intelectual. Logo aos 22 anos cometeu o erro da sua vida, ao casar com o puritano Gustav Mahler, que lhe disse isto assim: “Doravante terás uma única vocação: fazer-me feliz”. Com esta máxima lapidar, pretendia o ajuízado maestro impedir que a sua mulher se transformasse numa rival, e desatasse para ali a escrever música da boa – humilhação suprema para o director da Ópera de Viena. Alma, claro está, nunca deixou de compor, e tudo o que o fascismo colérico do marido conseguiu obter foi a infedilidade de sua mulher (o arquitecto Gropius – um dos fundadores da “Bauhaus” – não se importava nada com as partituras da sua bela amante), e uma separação dolorosa que o tornou cliente habitual de Sigmund Freud. Com a morte do marido, em 1911, Alma casa com Walter Gropius, para dele se separar logo de seguida e de pronto fazer vida comum com o pintor Oskar Kokoschka. Ainda assim, a bela musa não concluía o seu espólio de corações destroçados. Rompe com Oskar e casa com o poeta e novelista Franz Werfel. Entrementes, envolve-se em amizades mais ou menos coloridas com outros génios do século XX como Gustave Klimt, Bruno Walther ou Arnold Schönberg. É claro que no meio de todos estes romances com todos estes monstros da cultura europeia, ficou difícil deixar obra, mas Alma vingou-se afinal do machismo medieval destes homens que nunca reconheceram nela mais do que a ninfa danada das suas paixões, e podemos hoje considerar que sem a sua tentacular presença algo ficaria a faltar à história da música, da arquitectura, da psicologia e das artes plásticas do Século XX.
5.000 anos de religião em 90 segundos.
Eis um documento muito bem feitinho que serve para observar que as movimentações da fé humana acompanham muito de perto a dinâmica das civilizações. Onde se demonstra que a Religião é a irmã siamesa da Política.
Um General Sem Medos.

Na imagem está Bernardim Freire de Andrade (1759/1809), um homem que pagou com a vida o caríssimo preço de amar a sua pátria. Vale a pena contar a história.
Quando em 1807, a mandos de Bonaparte, Junot entra em Portugal arrastando um exército andrajoso, exausto e famélico, não encontra resistência. O Príncipe Regente e sua corte comprida de lacaios e curta de coragem já tinha entretanto dado ares de vila diogo para o Brasil. Na mais negra das suas páginas, o exército português, superior em número e equipamento, recusa o combate e abre alas para que os franceses entrem em Lisboa como quem chega a uma simpática estalagem sobre o Tejo.
Dados os tristes factos, são os ingleses que reagem, enviando em 1808 – sob o comando do General Wellesley – um corpo expedicionário de 13.00 homens para salvar esta pátria alheia. É aqui que surge o General Bernardim. Inconformado com a deplorável situação, agrupa 7.600 soldados e junta-se aos Ingleses acabados de desembarcar no estuário do Mondego. Recusando incorporar os seus soldados nas fileiras britânicas, acaba por desempenhar um papel estratégico para o bom sucesso da iniciativa militar: duas ou três escaramuças depois, a força anglo-lusa coloca os franceses em debandada na Batalha do Vimeiro, a 21 de Agosto, concluíndo-se assim a primeira invasão napoleónica.
Acontece que os termos da rendição imposta a Junot eram de uma benevolência tal que, antes de abandonar o país, a sua deplorável soldadesca teve a oportunidade de saquear todas as localidades incluídas no trajecto para Espanha. Os Ingleses, por seu lado, decidem permanecer numa semi-ocupação do território nacional, despreocupadamente acampados em algumas das mais importantes praças-fortes do país. Indignado com os termos da rendição francesa e o abuso muito pouco cavalheiresco dos ingleses, o General protesta, amotina-se e morde os calcanhares a toda a gente até que a 17 de Março de 1809, os Ingleses – já fartinhos de tanto incómodo – o atraem a Braga e o entregam desprotegido à voracidade da turba popular, previamente “aquecida” e manipulada.
Patriota dos cinquenta e tal mil costados, Bernardim Freire de Andrade, herói da nação, morre linchado pelo seu próprio povo.
Haverá moral para uma história destas?
A arte de ir ao teatro (manual de normas)
“Que o arrumador não passe na frente dos outros
nem vá levar ao lugar, enquanto um actor estiver em cena.
Os que estiveram em casa que tempos a dormir, sem nada fazer,
têm que aguentar agora de pé com coragem, ou de cortar ao sono.
Os escravos que não ocupem os lugares, para que os tenha quem é livre,
Ou então que paguem o seu resgate.
As amas que tratem das criancinhas pequeninas
em casa, e não as tragam para o espectáculo.
Assim nem elas têm sede, nem as criancinhas morrem de fome,
nem vêm para aqui berrar como se fossem cabritos.
As matronas que vejam em silêncio, que riam em silêncio,
que moderem o retinir da sua voz esganiçada,
que levem para casa as suas conversas,
para não maçarem os seus maridos aqui e em casa.”
Plauto, o Cartaginês
(254-184 a.C.)
Átila, o Flagelo de Deus.
O encontro de Leão I e Átila, de Rafael
Fresco, 1514, Stanza della Segnatura, Palazzi Pontifici, Vaticano.
451 D. C. – Depois de infligir graves derrotas e submeter a tributo os imperadores de Toma e de Constantinopla, Átila e o seu terrível exército de 50.000 hunos atravessa a Germânia como se nada fosse e devasta a Gália. O império romano está entre a espada e a agonia e Valentiniano – cauteloso e sábio césar – convoca Aécio, o seu melhor general, para travar um dos combates militares mais dramáticos e intensos da antiguidade e salvar o mundo civilizado.
Aéssio passara anos nos balcãs a treinar estes mesmos hunos e teve frequentemente em Átila um poderoso aliado contra as hordas visigodas. Foi aliás pelas inúmeras batalhas que travou pelo império, que Átila pensava ser o único rei do seu tempo com legitimidade para herdar – ou roubar – a púrpura romana. Genial estratega na melhor tradição dos grandes líderes militares romanos, Aéssio percebe rapidamente que as suas legiões se encontram em desvantagem anímica e numérica e recorre de imediato à implementação de uma estratégia diplomática que envergonharia Francis Dracon, convencendo os Visigodos de Teodoro e os Francos de Meroveu (sim, o patriarca da dinastia merovíngia de que tanto se escreveu a propósito do Código Da Vinci) a assumirem uma aliança com o santo império, enormidade trágica que haviam de pagar em sangue abundante nos campos Cataláunicos.
Numa monumental orgia de violência e crueldade inigualável – 60.000 mortos em menos de 48 horas – decide-se o futuro do Ocidente. Apesar da mortandade assolar os dois lados da contenda, Aéssio acaba por dominar a situação, mas de forma a restabelecer o frágil equilíbrio das fronteiras do norte, permite conscientemente a fuga de Átila e do que restava do seu exército.
Como vigoroso bárbaro e obstinado conquistador que era, Átila recupera num ápice e dirige-se para Itália logo no ano seguinte. Arrasa Aquileia, Milão e Pavia e detém-se às portas de Roma para reorganizar as tropas: o trono dos césares está finalmente ao seu alcance. É então que acontece um dos mais inconcebíveis eventos da história da diplomacia. O Papa Leão, o Grande, dirige-se ao aquartelamento do Rei Huno e consegue o prodigioso feito de convencer Átila a abandonar as suas intenções de conquista e usurpação e a retirar-se – como um magnífico cordeiro no melhor rebanho de Cristo – da Península Itálica.
Considerando que o Vaticano não possuia à altura algo que se assemelhasse a um exército, que este Papa tinha anteriormente atribuído a Átila a elogiosa alcunha de “Flagelo de Deus” e que nada impedia o Rei Huno de muito simplesmente o mandar cozinhar para banquete da soldadesca, a circunstância ganha estatuto lendário. Escreve-se hoje que Átila tinha motivações bem mais prosaicas para fugir de Roma. Por exemplo: o medo de uma epidemia. Seja como for, o Huno retira-se para Panónia, nas margens do Danúbio, onde acaba por morrer, vitimado pela ressaca de uma bebedeira épica (facto). Com o seu desaparecimento, o reino dos Hunos desintegra-se, definitivamente.

